Empreendedores fracassados e vencedores, todos à serviço da economia

O mundo vive um movimento pró empreendedorismo. Não que antes alguém fosse contrário mas o relevo que esta palavra vem ganhando é digno de atenção. Da TV aberta às redes sociais são estabelecidas relações positivas numa espécie de recrutamento incansável de novos empreendedores. Cria-se, desta forma, um constructo no qual empreender é sinônimo de sucesso financeiro, liberdade profissional, inovação e todos os outros conceitos que seguem a mesma ideia. O empreendedor é o dono da sua própria empresa e tem a capacidade de inovar constantemente, implementando novos processos ou modelos de negócios, criando oportunidades, gerando empregos e fazendo o mundo girar. Isto é bom, certo? Quem seria louco de dizer que não? Porém, juízos de valor tendem a comprometer as análises honestas e científicas.

No cerne do conceito do Entrepreneur (palavra francesa da qual se originou o termo) está o incentivo, a motivação. A palavra inglesa Entrepreneurship (empreendedorismo) amplia a ideia e enriquece o significado porque, semanticamente, refere-se aos hábitos e costumes do empreendedor, que por vezes se reduz àquelas listas que nós já conhecemos: resiliência, coragem, liderança e etc. Em sua acepção primeira o conjunto se amplia. Um catador de papelão, que acorda às quatro horas da manhã para percorrer quilômetros, muitas vezes intermunicipais, a pé, carregando aquele carrinho nas costas até o sol se por, não pode ser considerado alguém sem motivação. Da mesma forma, o trabalhador metropolitano que gasta de duas a quatro horas diárias, somente no transporte que o levará a um emprego que lhe garante um salário mínimo no fim do mês. Mas há os que dividem o mundo entre losers and winners (perdedores e vencedores) e vão apontar nestes dois personagens exemplos de fracasso.

Se há interesse da economia em novos empreendedores isto não é por acaso e a explicação pode ser em vários níveis, levando-se em conta estudos bastante consistentes, mas vou alienar-me temporariamente destes para uma opinião mais breve. Historicamente a economia liberal tem-se consolidado como a mais eficiente para o bem do capitalismo (exorto novamente para o cuidado com juízos de valor) e sua premissa, ou meta, é libertar-se das regras que podem deter seu avanço. Daí advém turbilhões globais que, associados às mudanças trazidas pela tecnologia da informação (como a extinção de profissões) demandam um novo paradigma, mais ressonante a este modelo econômico. São mudanças dolorosas, porém irrevogáveis.

 

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